Ser mãe de menino: um ato de amor e uma responsabilidade social

Marina“Até a década de 70, a identidade feminina e masculina era bem demarcada, ser homem era ser viril, e viril significava ser forte, insensível, grosso e agressivo, esse era o modelo do macho latino, já a sensibilidade, afetividade, delicadeza e empatia, que consiste na capacidade de colocar-se no lugar do outro, ficavam a cargo das mulheres, e eram sinônimos de fraqueza.”

Por Marina Otoni: sócia-fundadora da Clínica Base, graduada em Psicologia pela PUC-MG, Especialista em teoria psicanalítica pela UFMG e Mestranda em psicologia pela UFMG. Referência da Clínica Base em projetos relacionados à mulher focando temas como a maternidade e o feminino. (www.clinicabase.com)

Sou mãe de dois meninos e, desde que me tornei mãe, tenho recebido os mais diversos conselhos sobre como criar meus filhos, conselhos que partem tanto de pessoas da família e de amigos, quanto de estranhos, e que me levam a refletir sobre a melhor forma de criar meus meninos.

Mas de tudo que já escutei, o que mais me impressionou foi constatar que tanto homens quando mulheres continuam reproduzindo um discurso retrógado e machista em relação à educação de uma criança, principalmente dos meninos. Recentemente, presenciei a baba dos meus filhos recriminando o primogênito, que ainda não completou quatro anos, porque ele estava chorando. “Homem não chora”, ela dizia. Ouvir aquela frase, que meu pobre filho repetiu, me causou um verdadeiro mal-estar. Comecei a pensar como é cruel para um ser humano, principalmente para uma criança, que ainda não tem maturidade suficiente para lidar com as suas emoções, ser recriminada por estar simplesmente manifestando seus sentimentos, afinal, o choro é uma forma de expressar uma emoção.

Apesar de bem intencionada, ela estava reproduzindo na sua fala uma educação machista permeada de insensibilidade que perdurou por muitos anos na nossa sociedade. Até a década de 70, a identidade feminina e masculina era bem demarcada, ser homem era ser viril, e viril significava ser forte, insensível, grosso e agressivo, esse era o modelo do macho latino, já a sensibilidade, afetividade, delicadeza e empatia, que consiste na capacidade de colocar-se no lugar do outro, ficavam a cargo das mulheres, e eram sinônimos de fraqueza. Modelos que o movimento feminista colocou em xeque, abrindo a possibilidade de homens e mulheres construírem uma nova identidade. Mas será que vamos conseguir mudar essa realidade se continuarmos reproduzindo estes modelos não só na forma como educamos nossos filhos, mas também exercemos nossos papéis?

Homens ainda representam na família o lugar da força, segurança, estabilidade financeira e competência profissional. Mães ainda são referência de afeto, amor, sensibilidade, acolhimento e tolerância. Modelos que meninos e meninas reproduzem nas suas brincadeiras: eles brincam de lutinha, elas de casinha. Talvez, se permitirmos ao homem e à mulher transitar nesses lugares vamos possibilitar aos nossos meninos se identificarem com modelos que rompem com os estereótipos de homens e mulheres que prevaleceram em nossa sociedade durante anos, o homem viril, macho e insensível, a mulher frágil e dependente.

Educamos e lidamos com meninos e meninas de forma diferente. Delicadeza, sensibilidade, afetividade e proteção são atitudes comuns no tratamento reservado ás meninas. Mas, será que meninos precisam tanto de educação, orientação, proteção e afeto quanto as meninas? Será que abraçar, beijar, cheirar, brincar, rir, dialogar, ser afetuoso, carinhoso, criar vínculo, demonstrar amor, dizer o quanto eles são importantes, reconhecer suas conquistas, ainda que elas não atendam as nossas expectativas, acreditar que eles podem fazer melhor e incentivá-los, compromete a educação de um menino como muitos pais tendem a pensar?

Acreditando que tratando-os dessa forma vão acabar criando meninos mimados, sensíveis e afeminados. Ao contrário do que esses pais pensam, acredito que rompendo com a dureza e o autoritarismo que permeiam a educação de um menino não vamos comprometê-la, pois o afeto e o amor humanizam, transformam nossos meninos em garotos sensíveis, capazes de vivenciar e expressar seus sentimentos sem culpa e de reconhecer e compreender as necessidades do outro.

E transformá-los em garotos sensíveis, não é mimá-los ou torná-los femininos, como muitos pais que temem criar seu menino com delicadeza e sensibilidade tendem a pensar, mas não só criar filhos mais felizes e equilibrados, como também prepará-los para a vida, para um mundo em constante transformação, que a cada dia rompe com padrões e tabus que alimentaram preconceitos e justificaram atitudes violentas contra aqueles que não se enquadravam as normas durante muitos anos, pois, quem iria imaginar que no século XXI filhos de pais divorciados não sofreriam mais preconceitos e homossexuais poderiam não só assumir publicamente a sua relação, mas oficializá-la juridicamente, um mundo que parece acolher e tolerar melhor as diferenças, mas que só vai se concretizar, se fizermos a diferença com nossos filhos, afinal, educar um menino é mais do que um ato de amor, é também uma responsabilidade social.

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