Não se fazem mais crianças como antigamente. Será?

MarinaPor Marina Otoni: sócia-fundadora da Clínica Base

(www.clinicabase.com), graduada em Psicologia pela PUC-MG, Especialista em teoria psicanalítica pela UFMG e Mestranda em psicologia pela UFMG. Referência da Clínica Base em projetos relacionados à mulher focando temas como a maternidade e o feminino.

As crianças de hoje são rebeldes não escutam os pais e se recusam a seguir seus exemplos.  Anunciam a sua independência muito cedo e se apoiam nos colegas. Os pais de hoje deixaram de ser para elas uma referência, exemplo a ser seguido.

Desde 2002 atuo como psicóloga clínica atendendo pais de crianças de diferentes idades que apresentam alguma dificuldade no relacionamento com seus filhos. Dificuldades que acarretam as queixas apresentadas anteriormente e que os levam a afirmar que “já não se fazem mais crianças como antigamente”. Essa é a conclusão a que muitos pais acabam chegando, justificando, assim, a rebeldia dos seus filhos.  Mas será que as crianças do século XXI são tão diferentes das crianças do século passado? Foram elas ou os adultos que mudaram?

Recentemente, tive a oportunidade de ler um livro muito interessante intitulado “Pais ocupados filhos distantes”, cujos autores discutiam sobre a importância do vínculo que se estabelece entre a criança e seus pais ou qualquer um que se dispõe a cuidar dela para o seu amadurecimento emocional e psíquico.

Gordon Neufeld e Gabor Maté defendem na sua obra que uma criança só vai eleger seus pais ou um adulto como uma referência, adotando para si os seus valores e padrões de comportamento, procurando se orientar no mundo a partir deles, se ela tiver estabelecido com ele um vínculo afetivo. Ao defender essa ideia, os autores fazem uma crítica aos pais e profissionais de hoje que se dispõe a cuidar das crianças em diferentes contextos, e que, para eles, não são mais capazes de construir um vínculo profundo e consistente com elas. Sendo que a principal causa desse fenômeno pode ser atribuída a fatores culturais e econômicos.

Os autores acreditam que a sociedade atual não estimula mais a construção de um vínculo afetivo entre as crianças e os adultos responsáveis por elas, como também não cria condições para que isso aconteça quando não sensibiliza os profissionais em relação à importância do vínculo afetivo para o desenvolvimento emocional e psíquico criança, gerando também uma pressão econômica para que tanto o pai quanto a mãe trabalhem fora de casa, quando a criança ainda é muito pequena, restringindo a sua convivência aos finais de semana. Momentos que muitas vezes são tomados de compromissos sociais que impedem os pais de dedicar esse tempo precioso aos filhos e de construir com eles uma aproximação emocional e física, que representa o início para a construção de um vínculo consistente.

Assim, diante da ausência dos pais e da falta de sensibilidade dos profissionais que cuidam da criança no cotidiano não lhe resta outra alternativa a não ser desenvolver um vínculo com seus pares, ou seja, com crianças da mesma idade que ela ou mais velhas buscando nelas as referências essenciais para se orientar na vida. O que pode ser extremamente prejudicial para a criança, que acaba estabelecendo com seus pares uma relação de dependência, se distanciando daqueles que deveriam orientá-las.

Apesar de Gordon e Gabor atribuírem a saída dos pais para o mercado de trabalho como o que causa o distanciamento com a criança dificultando a construção de um vínculo consistente com ela, eles não defendem que os pais deveriam abdicar de seus projetos pessoais e profissionais para passar mais tempo com seus filhos. Para eles o problema poderia ser solucionado se os pais dessem a devida importância ao vínculo na hora de escolher uma escola ou profissional para cuidar de seu filho ao longo do dia, procurando avaliar se este é capaz de estabelecer com ele uma relação afetiva, evitando também deixar a rotina e o estresse do cotidiano invadirem suas vidas de tal maneira que eles deixem de reservar parte do seu tempo para conviver e estabelecer com seu filho um vínculo de amor e confiança.

O que me levou a pensar que, talvez, o problema não seja as crianças de hoje que não são como as de antigamente, mas os pais e profissionais que cuidam delas, que devido à pressão e ao estresse cotidiano, esquecem que a construção de um vínculo de afeto e confiança com a criança depende de presença física e disponibilidade afetiva.

Fonte: Neufeld, Gordon; Maté, Gabor. (2006). Pais ocupados: filhos distantes. São Paulo: Editora Melhoramentos.

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