Depoimento de Mariana Bahia (Gestação Ectópica)

Quando nascem os pais, mas não nasce o filho

“Meu filho, dentro de mim algo dizia que você era um menino”

Depoimento de Mariana Bahia

Advogada, feminista, mãe de Donato (um bulldog) e de Nina (uma vira-lata), ativista do parto humanizado e trabalha  com violência obstétrica). Também é escritora do Blog Ela Fala Demais.

“Não consigo descrever a felicidade que senti quando descobri que estava grávida de você. Depois de 07 meses tentando, finalmente os sinais de que você estaria chegando começaram a aparecer. Primeiro, um sono tremendo. Depois, seios quase explodindo, choro fácil, fome estranha. Uma verdadeira bomba hormonal tomou conta de mim.

Curiosamente, seu pai ficou grávido também. Em menos de 24h, ele virou outro homem. Não que ele já não fosse um marido bacana. Ele é massa. Mas preciso te dizer, meu filho, você virou a vida do seu pai ao avesso. Rapidamente ele se tornou um cara organizado, deixou de comprar vinis porque o preço era equivalente a vários pacotes de fralda, passou a acordar mais cedo porque queria ganhar mais dinheiro pra te dar conforto, e não queria que eu tivesse mais trabalho algum. Essa parte era engraçada, mas eu achava a coisa mais linda desse mundo.

O grande sonho das nossas vidas era ter um filho. Na verdade, continua sendo. Isso nunca mudará. E, apesar de não estar mais no meu ventre, você nos mostrou o quanto o amor de uma mãe e de um pai pode ser incondicional. Seu pai virou a chave dentro dele. Eu, pude colocar em pratica todos os conhecimentos que adquiri em 01 ano de leitura. De repente, não conseguia comer qualquer tipo de comida que me (te) fizesse mal. Meu mundo se transformou de uma forma que nunca vou conseguir te explicar. Em poucos dias meu corpo virou outro. Tudo pesava, tudo doía. E eu só pedia a Deus que crescesse e que doesse cada vez mais. Era uma dor maravilhosa.

Mas, infelizmente, nossa alegria durou pouco. Os sangramentos começaram, o repouso foi necessário, e toda aquela magia que pairava aqui em casa estava ameaçada. Depois de alguns dias, alguns exames foram feitos e o diagnóstico foi dado: você não tinha se desenvolvido. Tínhamos te perdido. Uma onda de desespero se instalou em nossos corações. Mas o que você não sabe, meu filho, é que você só trouxe coisas boas para nossa vida, pro nosso casamento. Você era o início da nossa família.

De repente, toda a alegria dos amigos se transformou numa enorme tristeza. A felicidade com que todos receberam a notícia da sua vinda foi transformada numa enorme dor, mas sempre recebíamos palavras de esperança. E te digo, meu filho, foi lindo de ver a alegria dos seus futuros tios. Alguns pareciam que estavam recebendo a noticia como se fosse sua. Era comovente.

E ai, meu amor, você conseguiu trazer pra perto da sua mãe pessoas que já haviam sumido há muito tempo. Às vezes a gente se afasta de pessoas que amamos, não porque brigamos, mas porque a vida tem dessas coisas. Não porque queremos, mas porque muita coisa foge ao nosso controle.

Outras pessoas com as quais sua mãe não tinha tanta intimidade foram as primeiras a ligar, a dar uma palavra de apoio, a enviar uma mensagem pelo facebook. Você nos proporcionou uma onda de amor nunca antes vista ou sentida pelos seus pais. Sou muito grata por isso.

E a tristeza do seu pai? Meu filho, seu pai nunca te carregou no ventre, mas só porque a natureza não permite. Se fosse possível, assim ele teria feito. E te digo com toda certeza: ninguém lutou mais por você do que o seu pai. Ninguém (nem eu mesma) criou mais esperanças por um bom diagnóstico, ninguém se esforçou mais pra acreditar que o futuro seria lindo.

Depois de muito chorar, decidimos que seguiríamos em frente, que perder o primeiro bebê acontece com muitas mulheres, que não éramos amaldiçoados por causa disso.

Foi então que num exame de rotina, descobrimos que não havíamos te perdido. Acredite se quiser, mas é isso mesmo. Você ainda estava aqui, dentro de mim. O problema é que ninguém te achava. Você não estava no meu útero, mas também ninguém te encontrava nos meus ovários ou nas minhas trompas.

E esse sentimento era muito louco. Primeiro, eu tinha te perdido, depois era sua mãe novamente. Mas vou te dizer, meu filho, coração de mãe não se engana: eu sabia que algo de errado estava acontecendo. Seu tio Lippo não sossegou enquanto o seu segundo diagnóstico não chegou, e eu nunca, mas nunca mesmo vou me esquecer disso. Gratidão profunda é o que sinto pelo nosso médico.

Na sexta de carnaval senti dores horríveis, e seu pai nos levou para o hospital. Finalmente, o tão temido diagnóstico apareceu: você estava na minha trompa direita. Tive que ser operada de urgência, mas graças a Deus fui recebida por uma equipe maravilhosa que me tratou com muito amor e carinho. Seus tios ficaram um tanto quanto desesperados, seu avô e nosso médico chegaram correndo no hospital, mas deu tudo certo. Não preciso nem dizer como seu pai ficou, mas o que ele queria mesmo é que eu não corresse risco de vida.

E ai, meu amor, quando acordei da cirurgia, percebi que você veio e foi embora de uma forma tão rápida pra me ensinar uma coisa muito importante: a ter paciência. Esse sempre foi o meu ponto fraco, meu filho. E você, mesmo do tamanho de um feijão, me ensinou que a gente não controla nada nessa vida. Nem a hora de nascer, nem a hora de morrer. Também me ensinou que perdoar é preciso. A si mesmo e aos outros.

Você me mostrou que eu tenho os melhores amigos desse mundo. A melhor família também. Você confirmou aquilo que eu já sabia: seu pai já foi e vai ser o melhor pai desse mundo. E eu digo já foi porque nós já fomos pais. Por mais que tenhamos sido pais por apenas 03 semanas, ninguém vai tirar isso de nós.

Pode ter certeza, meu filho, de que seus irmãos saberão que serão o segundo e o terceiro. Você sempre será o primeiro. Sempre. Pode ser comum perder o primeiro bebê, mas mãe nenhuma vai se acostumar com isso. Eu sei, acontece com muita gente. Mas o que eu queria mesmo é que você estivesse crescendo aqui dentro.

Só que nem tudo é como a gente sonha, por isso te agradeço por ter me concedido essa benção, mesmo que por pouquíssimo tempo. Eu, você e seu pai, sabemos que você abriu o caminho pros seus irmãos, pra que eles possam vir saudáveis. E eu jamais me esquecerei disso. Muito obrigada por você ter passado por aqui. Muito obrigada por ter enchido meu peito de amor, alegria e esperança. Muito obrigada por ter nos escolhido. Seus irmãos saberão o que você fez por eles, pode ter certeza disso.

Com MUITO amor,

Sua mãe.”

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